Tempo de Recomeçar

Tempo de Recomeçar
"Essa história vai emocionar você"

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Perólas de Jardim

Que bela és pela manhã
Quando banhada em orvalho
Revelas toda a formosura do seu clã
Enfeita os jardins com suas nuances
Suas pétalas são pedras de rosário
Santo sudário dos amantes

O vento é valsa que te faz bailar
O sol maquiagem de luz
A noite escura te vela cuidadosa
Até os astros você seduz

És
Rosa
Margarida
Violeta
És letra e prosa
Rosas vermelhas sobre a mesa
Noite, velas, paixão
Na cama dos amantes: sobremesa!


Rainha da terra, princesa dos jardins
Fada misteriosa, cúmplice dos querubins
Bem-me-quer-mal-me-quer
Margaridas espalhadas pelo chão
A menina faceira lhe desnuda as pétalas
Descobre a paixão

Fonte inspiradora dos poetas
Oásis das borboletas
Celebra o amor em noites de seresta
Eternizo-te em letras

Estás em tudo
Rainha dos enlaces
Mártir nas despedidas
És coroa, és buquê
A certeza do bem querer

Cupidos no céu preparam sua munição
Flechas de flores
Selam destinos
Flertam amores
Um sopro de pólen no ar
Desatinos....
Nasce uma flor sobre o mar

(Cassiane Schmidt)

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

VIOLETRANDO I


Na rua deserta da cidade
Há uma menina
Caminhando em desventura mocidade
No corpo marcas de uma sina

A pequena vagueia pelas ruelas desertas,
Decotes rasgam-lhe o peito
Nos lábios, impetuoso batom vermelho,
Nos olhos, desespero.

A noite está escura no beco,
Um cheiro de barato perfume
Espraia-se pela escuridão
Um gesto, um aceno de mão,
Lá vai a pobre criança,
Cumprir sua maldita lição.

Rebola menina não,
Teus pés deveriam estar pulando amarelinha,
Dançando cirandinhas
Desenhando sonhos no chão,
Com velhos tijolos de construção

Qual é o teu nome?
Pobre menina,
Que vida é essa que te consome?
Quem são teus pais?
Que País é este?


Salve! Salve!
Que os céus abram guardas de salvação
Como pode anjos pequenos rendidos à perversão?
Salve! Salve-se quem puder
Maldito ditado!
Dizem as más línguas que o autor é o tal do diabo!

Enquanto isso do outro lado da cidade
Burgueses engravatados assistem à televisão,
No noticiário:
....Menina morta é encontrada no chão!



......(Cassiane Schmidt) .......

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Terra: Uma Colônia de Férias?


Pensar a condição humana aqui na terra tem sido uma idéia fixa, quase uma obsessão, compreender a origem de tantos males, do sofrimento, da ignorância, da violência cometida a inocentes, tudo leva a um inevitável pensar! Quem ousa refletir por alguns instantes a vida, a atual conjuntura humana, invariavelmente sofre! Pois reconhece o sofrimento no rosto do outro, sente compaixão com a dor do outro!
Pessoas há que passam a vida sem se importar com o que ocorre a sua volta, sem provar uma única dose de compaixão diante das mazelas humanas, que por sinal, estão a nossa volta o tempo todo. Os hipócritas fecham os olhos e fingem que nada acontece; trata-se a indiferença de um germe altamente nocivo ao coração humano.
Observando os maiores entraves espirituais, a crise existencial que vem literalmente abatendo milhões de pessoas em todo o mundo, diante dos circunlóquios dos quais se utilizam os livros de auto-ajuda, promessas de cura através da repetição de palavras: “Eu me amo”; “Eu sou capaz”; “Eu posso; “Deus vai te salvar”! Blá...blá...blá!, chega-se a conclusão de que as pessoas perderam a identidade, estão órfãs de coragem, de fé, de princípios éticos.
Como adendo, vale lembrar que a mera tagarelice de palavras positivas, sem esforço, sem mudanças de hábito, mudanças de vícios mentais, sem empreendedorismo a favor da própria vida, de nada vai resolver!
Ah, antes que eu esqueça: Deus não salva ninguém! Somos nós que através duma fé raciocinada, de responsabilidade e esforço é que nos salvamos, é que encontramos forças para superar os obstáculos da vida!
Isso me lembra uma velha e breve estória: “Um velho senhor, admirado por sua fé inabalável à Deus, certa feita ficou a deriva em alto mar, após seu pequeno barco naufragar. Estando quase a se afogar, quando surge uma embarcação, os pescadores da pequena embarcação lançam-lhe bóias de salva-vidas, no que o homem de muita fé recusa a ajuda dizendo: - Deus é meu Pai, ele irá me salvar, recusando assim a ajuda dos pescadores. Ao morrer, é óbvio que ele morre, chega ao céu e pergunta a Deus: - por que não me salvaste? Deus responde: - Enviei um barco para te salvar, mas você recusou!”
As pessoas idealizam Deus, idealizam a salvação. Deus, decididamente não é um velho de barbas brancas, sentado num trono de ouro no céu, arrogantemente contabilizando e assinando sentenças! Ele mora e vive no coração de cada ser humano, seu trono e sua morada somos nós que edificamos, os tijolos para construção são feitos de amor, de bondade, de compaixão, de perdão, de renuncia, de fé, de oração!
Deus está presente nas coisas mais simples do dia-a-dia, num gesto solidário, no amor ao próximo, na caridade, e digam isso é fácil? Claro que não! Mas a vida é isso, uma escola difícil de ser cursada. A origem de muitos dos nossos sofrimentos está associada à idéia de paraíso! O ser humano vive em busca do fantástico mundo de Bob, dum paraíso surreal! Somos uma espécie preguiçosa demais, por isso Deus, em sua infinita sabedoria, manda-nos uma cartilha com atividades para cada um resolver! Algumas cruzes que carregamos fazem parte de halteres espirituais, que servem para fortalecer a fé, para arrancar-nos da condição de bicho preguiça humano e ir trabalhar, ser menos egoísta.
A tão sonhada paz repousa tranqüila no coração de quem faz o bem, a paz pode ser experimentada até mesmo nas dificuldades, importante é compreender as lições intrínsecas nas dificuldades que nos acometem!
A vida não é uma colônia de férias! Não estamos a passeio, absolutamente tudo que ocorre na vida de cada pessoa, tem um significado, um propósito!
Fantasiamos a felicidade, sempre como algo distante. É comum ouvir pessoas dizendo: serei feliz quando isso, quando aquilo; E esse quando não chega nunca, não vivemos o presente! Parte da mente é memória, a outra é imaginação! Então, ou estamos vivendo das lembranças do passado, ou estamos imaginando o futuro, ou seja, não vivemos o agora!
A idéia de unicidade, de irmandade, produz uma sensação de paz no coração humano, quando reconhecemos no outro parte de nós, compreendemos que somos irmãos, que somos todos os protagonistas do mesmo filme: “Evolução”, cada um compondo o seu papel, escrevendo a sua história, de acordo com a capacidade de que dispõe.
É preciso compreender a marcha da evolução, compreender os passos de cada um! O planeta terra é como uma grande escola, cada qual integra uma série de acordo com suas necessidades espirituais. Imaginem colocar um aluno da primeira série do ensino fundamental com um aluno do terceiro ano do ensino médio? Da mesma maneira, cada pessoa vive onde merece, passa pelas experiências que precisa, e nada, absolutamente nada é por acaso! Contudo, muitas coisas na vida podem ser revertidas, provações e sofrimentos podem ser evitados, ou ao menos amenizados, para isso há um único caminho: caridade!!!
A caridade é o GPS através do qual Deus nos localiza! Através da caridade poder-se-á abrir os caminhos para uma vida melhor, para um mundo novo! Substituindo raiva por compreensão, ódio por amor, estar-se-á contabilizando um novo saldo espiritual! Vamos sair do vermelho? Caridade rima com felicidade!
Viver é um desafio, requer esforço e dedicação. A pratica da fé exige de nós um preparo mental digno de atleta de olimpíada, quanto mais aprimoramento, maior a responsabilidade na vida! Vamos em frente, não vamos desperdiçar qualquer oportunidade de fazer o bem, pense por um momento, isso é a única coisa que realmente faz a vida ter algum sentido!

////////( Cassiane Schmidt) ////////

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Tardes de Agosto



O vento lá fora abriu as janelas do tempo
Esvoaçando as velhas cortinas desbotadas
Lembranças invadem a sala empoeirada
A lágrima desenha na face o percurso da dor
Manchando a folha de papiro de amor.

O coração rebelde alça vôo sobre o tempo vivido
Celebrando a missa do último dia de amor
Um cortejo te conduz pelas ruas desertas de minha alma
Vejo-te ir, cada vez mais longe, te enterro em mim!

Cupidos loucos dançam no céu
Cospem em minha tristeza lágrimas de fel
Nada restou, nem sorrisos, nem lágrimas
Só lamentos, lamento só
O que restou de nós.

Meus dedos devoram o velho rosário
O mesmo que outrora massageava em graça
A cada pedra uma oração
Lanço aos céus súplicas de esquecimento!
A Nossa Senhora peço socorro em gesto de mão
Que as pedras de meu rosário
Alcem alivio no mastro do meu coração.

Se pudesse:

Arrancaria da memória ocular tua imagem
Esqueceria tuas covinhas nascendo dum sorriso
A face dum anjo escandalizando meu frágil juízo
Esperanças flagradas no inocente olhar
Gestos e detalhes de nós dois se espraiam pelo ar

Se pudesse:

Do corpo apagaria as marcas de amor
Dos lábios o gostoso gosto
Que em desgosto se transformou
Secaria o córrego que nasceu do meu olhar
Apagaria com as cores do esquecimento
A imagem que de ti em mim ficou.

Da janela avisto o tempo vivido
No meu peito inquieta-se um coração tingido
Como bicho selvagem quer fugir
Reviver as memórias
Sentir o gosto da vitória
Daquela tarde em que te vi.
A suave brisa desta tarde enferma de Agosto
Trás consigo as lembranças
Abre no peito uma dor...
A saudade triste foge da gaiola
Bate asas sobre o tempo adormecido
Arranha a cicatriz que nunca curou.

Os finais de tarde tristes eram alegres de nós
Os lábios selvagens selavam juras
As mãos dadas costuravam nossas almas
Nas velhas tardes aladas
O brilho no olhar batizou uma sina
Escravizando para sempre o coração de menina.


Sorrisos azuis de hortênsias decoravam os jardins
Girassóis amarelavam os campos
Os pássaros, para nós, ensaiavam cantos
Manchas de um tempo perdido em velhos lençóis.


As flores perfumavam nossas almas
Os sorrisos contidos, o desejo proibido
Os versos destilados pelos teus lábios, escorriam pelas mãos
Desnudavam meu pobre coração
Presa no labirinto do seu olhar
Esqueci de tudo, joguei fora a razão
Não vi o tempo passar...

Tuas mãos lavraram meu corpo
Teus lábios regaram minha alma
Dos sonhos idos, o sonho adormecido
Naquele fim de tarde de Agosto
Em que provei o desgosto, de ter te perdido!


....... ( Cassiane Schmidt) ........

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Aposentos do Coração...



O coração é como uma pousada, um local que hospeda não pessoas, mas sentimentos.
Imaginem uma bela pousada chamada coração, neste local há uma recepcionista chamada emoção. A emoção é cordial com todos que querem hospedar-se, cordialmente recepciona todos os sentimentos que nele chegam, sem filtros, ela mistura-se aos sentimentos espalhado-os por todo o coração.
Localizado no lado esquerdo do peito, o coração é atingido diretamente pelos sentimentos que nutrimos ao longo da vida, sempre encaminhados, de maneira branda ou agressiva, pela tal emoção!
A emoção é quem vai acomodar os sentimentos que vão chegando ao coração. Com o tempo, este local sagrado precisa de manutenção, pois alguns hóspedes tratam muito mal este aposento.
A tristeza, por exemplo, é inadimplente com a emoção, entra sem pedir licença, traz seus companheiros: a angústia, a solidão, o medo, a raiva, tais sentimentos saem sem pagar a conta, prejudicam o funcionamento do coração, colocando-o em perigo! Já ouviram falar em coração falido?
Alguns hóspedes são muito bem vindos, a alegria quando chega renova o ambiente, colorindo com suas cores os jardins do coração. A emoção espalha a alegria por toda a parte, é como lava jato energético, retirando as manchas deixadas pela tristeza. A alegria, o amor, a esperança constroem no coração um aposento de luxo! É preciso manter os aposentos do coração sempre lotados dos sentimentos de paz, pois assim, não haverá lugar para os malfeitores, como à raiva, à tristeza, à angústia!
Quando predominam por longo tempo, sentimentos de raiva, mágoa, tristeza e dor, o coração é afetado, vai perdendo a vitalidade. Tais sentimentos produzem substâncias químicas nocivas para a saúde, enfraquecem a resistência imunológica, comprometendo todo o organismo. Pessoas submetidas a stress intenso, mágoas e embates emocionais negativos por longos períodos, acabam desenvolvendo predisposição a ataques cardíacos, entre outros problemas de saúde.
A medicina moderna reconhece, cada vez mais, que os sentimentos negativos ou de ódio para com outra pessoa, incapacidade de perdoar e baixa estima, produzem doenças físicas e psíquicas, acarretando um sem número de prejuízos a saúde do ser humano. Muitas das nossas doenças – explica a ciência médica – são no fundo produto dos nossos rancores ocultos.
Sentimentos de paz e otimismo liberam substâncias químicas benéficas para a saúde, a endorfina é uma delas. A endorfina produz uma série de vantagens para a saúde: Melhora a memória; Melhora o estado de espírito (bom humor); Aumenta a resistência; Aumenta a disposição física e mental; Melhora o sistema imunológico; Têm efeito antienvelhecimento, pois removem superóxidos (radicais livres); Aliviam as dores
em geral.
Cabe a cada um de nós manter a pousada “coração”, com sentimentos benfazejos em relaçao ao mundo, às pessoas, à vida! Aceitar o próximo, desfazer-se de pré julgamentos, perdoar quem precisa ser perdoado, saber superar as dificuladades e os erros passados, tudo isso, consitui fator importante para manter a saúde emocional em dia!
As crianças merecem atenção especial em relação a sua saúde psico emocional, é preciso pais equilibrados para formar crianças saudáveis e felizes. Através do amor e da generosidade, poder-se-á crer em uma sociedade mais feliz, mais saudável, numa sociedade menos violenta e mais acolhedora.
lll (Cassiane Schmidt) lll

domingo, 17 de agosto de 2008


Nem letras nem cor, nem lápis de cor! O bolinha morreu, as árvores do jardim secaram, os passárInhos foram embora! A lua se aposentou e o sol aqueceu o frio da alma humana! Ouvi dizer que a barbie rompeu seu namoro com o Ken, mas quem quer saber disso..., do Ken. Meus neurônios foram passear, talvez não voltem mais, não sei! _(@_@)_ A máquina de lavar está cheia de roupa suja, como a chuva que não vem...Letras soltas, rebeldes se costuram, se alinham, se deformam, se transformam em ninho de gato, ou passáro? Bonecos ganham vida, o Manequinho flerta com a Emilia, não da certo...O sorvete escorrega pelas mãos, desse pela guela, fechem o portão!!!!

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Lembranças Levadas, Veladas...



Desenhei letras rabiscadas no coração de menina,
Acreditei em sonhos e contos de fada
Pulei o muro alto do tempo, para ver o que tinha do outro lado...
Não pude mais voltar
Manchei a roupa da candura com a escuridão da realidade.
O tempo arrancou-me dos braços as bonecas,
No lugar delas carrego o peso da saudade.


A ignorância dos homens cegou-me os olhos de criança
Os olhinhos azuis ficaram negros de desesperança
Meus pés pequenos tinham os caminhos da alegria como percurso
Hoje caminho em labirintos de pedra,
Flores coloridas artificiais velam velhos sonhos
Escombros humanos caem por terras longínquas
Cemitérios crescem na alma humana


A dor invade o peito do homem
A esperança repousa moribunda no leito da descrença
Um retrato cai da estante da sala
Resta apenas uma imagem temperada com cacos de vidro
Nada restou, o ídolo talhado ingenuamente se desfigura.


O amanhecer revela o tempo passado,
O sabiá sobre a árvore vela a natureza
Lembranças cheirando a mofo
Lançadas sobre a mesa

Não há mais ninguém em casa
As cortinas estão puídas
Brinquedos velhos de velhas crianças criam traças
Sonhos montados em quebra-cabeças de ruínas

O barulho das lembranças explode no peito...
O cheiro de erva doce se espalha na alma
A noite vai abraçando o dia com deleito
Os ponteiros do relógio dançam valsa sobre o tempo

Algodão doce espalhado pelo chão,
Roda gigante flutua nos céus
Lanço memórias em cirandas de carrosel.
O túmulo das memórias invadido
Revela um tempo vivido
Alivia as dores de uma alma
Inadimplente com o tempo adormecido!


( Cassiane Schmidt)

terça-feira, 29 de julho de 2008

Lembranças da Casa do Vovô

Dos tempos idos, recordo saudosa da casa do vovô Aluisio e da vovó Júlia. Na casa dos meus avós paternos repousam parte da minha história, registros de minha infância. A casa do vovô localiza-se nas paragens de Rio do Campo, como o próprio nome sugere, é uma cidadezinha com muitos rios e campos. E foi lá nos verdes campos de Rio do Campo que vivi momentos de intensa alegria, intensa liberdade! A infância por si só já traduz vida em liberdade, amor em realidade.
Lembro-me, sem esforço algum, de cada curva de pasto da morada do vovô, lembro-me ainda, da profundidade das lagoas turvas, nas quais eu sempre mergulhava em aventura proibida.
A riqueza de detalhes que guardo, misturam-se a saudade, então os reescrevo para me transportar novamente aquele lugar, a escrita proporciona isso.
Os detalhes nas porteiras, os currais onde via vovó com suas mãos finas tirar leite das vacas, a caça as galinhas, esquecer por vezes a porteira aberta para ver o gado fugir, as aventuras secretas no precipício da cachoeira, hoje sei que crianças têm a permanente proteção de anjos.... Os dedinhos da vovó apertando de leve minhas orelhas, tais lembranças pulam dos meus dedos, massageiam os teclados, como criança peralta querendo brincar, arranhar as lembranças é voltar a sonhar, é pegar o trem rumo a nascente cristalina de onde brota a história de cada um de nós.
O vovô Aluisio costumava sentar-se num velho caixão de lenha, onde calmamente preparava seu cigarro palheiro, lembro-me que passava a palha do cigarro sobre os lábios finos e ajeitava cuidadosamente o fumo entre as palhas, enquanto vovó preparava na cozinha o jantar. Os olhos do vovô eram azuis celestes, suas mãos eram finas, iguais a da vovó, seus dedos calejados do trabalho na roça, seus cabelos brancos da cor de neve, era magro e alto, o vovô era um homem elegante, parecia também, ser feliz.
Eu e minha irmã Juliana ficávamos as voltas do vovô, ele contava estórias de terror, de fantasmas e luzes vermelhas que cortavam os pastos em noite alta. Morríamos de medo, mas sempre queríamos ouvir mais, vovô Aluisio, hoje sei, era um exímio contador de histórias. Além das escabrosas estórias de terror, havia também uma canção em alemão que ele cantarolava para nós, contudo a letra fugiu-me a memória, guardo apenas a melodia.
Vez por outra a vovó Júlia ralhava com ele, penso que ela não queria que ele nos assustasse com suas estórias, temendo a noite que não dormíssemos.
Alguns detalhes da casa do vovô e da vovó permanecem vivos minha memória, algumas mobílias, a velha tevê, a varandinha cheia de folhagens, o cachorrinho de pano, o sofá da sala, o quarto deles com duas camas, a caixinha de grampos dourados da vovó, o cheiro do talco que ela usava.
A sopa da vovó era pintada de verde, de cebolinha, tão saborosa aquecia-nos a alma, ainda hoje não digeri a lembrança deste tempo. Vovó ainda preparava um capilé de groselha, era tão doce, tão doce, que adoçava o paladar curioso de criança.
Nas noites escuras do campo, vinha uma batucada das lagoas, sempre me diziam tratar-se de sapos-boi. Ah, esses tais de sapos-boi povoavam minha imaginação, ficava na cama imaginado que os bois, durante a noite, transformavam-se em sapos, e todos na lagoa tocavam tambor para os peixes dançar.
Nos prados amanhecidos do Rio do Campo, desenhei histórias e aventuras, rabisquei no chão livre de outrora meus sonhos, meu retrato. Mal sabia que ensaiava a despedida do melhor tempo da minha vida, estamos sempre ensaiando uma despedida, a vida é isso, chegada e partida. Queria ter hoje em minhas mãos, uma resenha do olhar azul do vovô, um áudio daquela velha canção cantarolada em meu coração, mas não os tenho, nem avôs, nem infância, nem o calor da brasa quente queimando no fogão a lenha.
O velho fogão a lenha aquecia as manhãs e as noites invernais, da chaminé, naqueles tempos, espraiavam-se as nossas vidas, a fumaça era bailarina dançando nos céus a despedida, não nos dávamos conta disso, mas assim o foi, se foi, cada um deles, cada um de nós.
Nada há que iguale aqueles velhos tempos, nada há que a vida adulta trouxe que compita com as aventuras e amores vividos em minha infância.
Meu coração pulando em meu peito batuca minha canção, ensaiando novamente, a despedida, cada pulsar lembra-me a menina dentro de mim pulando, querendo sair, voltar a brincar. Um dia essa menina incontida pulará tão alto em meu peito e fugirá pelo brilho adormecido do meu olhar, voltarei aos velhos tempos. O primeiro a partir foi o vovô, quando o vi no leito, com sua face coberta com paninho de renda, não senti tristeza, algo em mim não se despedia, sábio o coração de criança. Enquanto meu avô era velado na sala, eu brincava nos pastos, corria nos verdes prados da esperança, sepultando meu velho com alegria. Senti falta do vovô tempos depois, quando via o caixão de lenha onde ele costumava sentar, quando queria lembrar a letra da musica em alemão, e não havia mais vovô para lembrar-me a canção.
Depois da morte do vovô, a vovó foi ficando amarela, sua cama, suas roupas, onde ela tocava ficava amarelo, foi adoecendo.
Eu acreditava que ela estava ficando amarela de saudade do vovô, acho que foi mesmo, quinze dias depois a vovó se despede de nós.
Sempre pensei que quando sentisse muita saudade de alguém ficaria amarela, como vovó Júlia, hoje eu sei que saudade não tem cor, que bois não se transformam em sapos, e que lembranças não morrem, jamais são sepultadas no coração de quem ousa sonhar!
No lugar do vovô e da vovó ficou tia Alzira, velando as lembranças daquele lugar, semeando esperança no seu cativo olhar, cedendo espaço para muitas aventuras que por lá realizei, mas esta é uma outra história.


( Cassiane Schmidt)

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Olhos Lavados


O amor invadiu minha vida, matou a solidão,
Encheu-me de torpor, embriagou-me com o cálice da perdição.
Acordei na alcova fria que me deixaste,
Das paredes escuras precipitavam-se anjos sem asas,
Riam, choravam,
Do meu tormento zombavam.
O amor velado sem velas,
Levado sem prece, com pressa,
Nos olhos lavados.

Ébria, sigo adiante na estrada da esperança,
Carrego em meus lábios o teu gosto, no peito um desgosto,
De ter amado mais que podia,
De ter calado antes de amanhecer o dia.
Bebi o ópio da papoula que me deste,
Da flor nada restou, estamos cá as duas,
Na intempérie dum tempo agreste.

Nos meus olhos repousam sofridas nossas lembranças,
Meu olhar distante revela que cá não estou,
Mergulhei no abismo de palavras mortas,
As ditas e não ditas,
Ah! Malditas.

Peço:
- Leve para longe a lua, o sol, o mar, as estrelas, os vales,
São eles testemunhos do crime cometido, cenário do amor vivido.
Como hei de esquecer a peça no palco do teatro?
Com o roteiro preso em minhas mãos?
Com o retrato dum tempo,
Que matou meu coração?


Lágrimas deslizam sobre minha face,
Tem seu curso findo pela saliência dos meus lábios,
Sinto o gosto de dor da lágrima,
Da lástima,
Estranho é provar a própria dor, a do amor.
Sentir o gosto do desgosto,
Ainda assim sentir falta do que provou,
Do que provocou este tal de amor...

( Cassiane Schmidt)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O espelho








A verdadeira beleza é aquela que o tempo não pode assinar com rugas....










A verdadeira beleza esta repousando tranqüila nos corações generosos, está faceira dançando sobre a certeza de ter cumprido sua missão, de ter vivido intensamente, fartando-se da fé diante das dificuldades, do amor diante do ódio, do perdão diante da injustiça.
A beleza eterna estará nas lembranças que deixamos, nas amizades que construímos, nos amores que vivemos.
Cada passo que damos constitui os registros de tudo que fizemos, nossas pegadas são a escrivã fiel de nossa história, por isso, quanto mais caminhamos mais aproximamo-nos de nossa verdadeira imagem.
Lembrem-se da personagem da estória da Branca de Neve, a tal da bruxa. Pois bem, ela perguntava sempre ao seu espelho: - espelho, espelho meu, há neste mundo alguém mais bela do que eu? muitas vezes preocupamo-nos apenas com a superficialidade da imagem que o espelho revela, sem se importar com a beleza oculta de nossas almas.
Imaginem um enorme corredor, ao fundo do corredor há um grande espelho. À medida que caminhamos (o tempo vai passando), vamos aproximando-nos mais da imagem refletida no espelho, então, passo a passo, a imagem vai ficando cada vez mais nítida.
Da mesma maneira o espelho da vida irá refletir a nossa imagem real, sem máscaras, sem fraudes, seremos nós e ponto. E no passo final, lá estará o espelho de tudo que fomos. De tudo que fizemos. As flores que plantamos. Os espinhos com que ferimos. As palavras doces e as cruéis sairão de alto falantes ecoando em agudo nos corações humanos. A mão que estendemos em hora providente. A mão que recolhemos em ato de egoísmo, tudo emergirá da consciência, será o fim da oportuna e cômoda amnésia. Neste tempo, olhos nos olhos, retrato na parede, lágrimas e sorrisos, um espelho.
Cassiane Schmidt
(*_*)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

De volta pra casa...


Trata-se a solidão de um estado de alma, uma sensação que pode bater a sua porta, mesmo você estando rodeado de pessoas. Invariavelmente triste, causa torpor e estranheza em quem a recebe. Como aquela visita chata que chega a casa nossa, e não vimos à hora da despedida.
Vivemos rodeados de pessoas, convivemos com algumas delas por amor, com outras por obrigação, no meio do barulho, das diferenças, muitas vezes sentimo-nos sós, impotentes diante da vida. Como seria bom ser como as tartarugas que recolhem sua cabecinha para dentro de si, talvez ali elas encontrem paz. Lembro-me de quando era criança, quando me sentia triste, ou minha mãe chamava-me a atenção por motivos tão corriqueiros, que nem os lembro mais, costumava esconder-me dentro do armário que ficava em meu quarto. Recordo com salutar saudade daqueles tempos, passava alguns minutos, talvez mais, dentro do armário escurinho, por vezes pegava no sono, e então era um deus nos acuda, pois ninguém me encontrava. Depois de algum tempo, quando davam pela minha falta, todos recorriam ao armário. Dentro do velho armário eu me sentia protegida do mundo, das pessoas. Que deleitoso tempo aquele, quase todas as noites antes de dormir, minha mãe sentava-se ao lado da minha cama e segurava uma de minhas mãos, sim porque a outra estava ocupada em segurar meu cheirinho de pano, ela então contava-me historinhas, e assim eu adormecia apertando suas mãos contra as minhas. Quando pequena eu cria em um mundo mágico, uma terra de flores e fadas, como eu era feliz! Hoje há uma menina prisioneira dentro de mim, ela não consegue sair, não há mais lugar pra essa menina expressar o encantamento que outrora morava em seu coração. Temo que um dia essa menina, por falta de espaço, precisando de ar puro, queira sair da gaiola, queira brincar novamente no chão livre daquele tempo, pois neste dia então, eu não estarei mais aqui.
Serei uma estrela no céu, a chuva num final de tarde, estarei douda de alegria, brincando em meio a revoada de pássaros numa tarde de primavera, estarei banhando-me da mais intensa felicidade em cada sorriso que uma criança der cá na terra. Algo de mim ficará guardado eternamente em papéis, em letras rabiscadas nas fachadas do tempo, onde pude assinar um tempo, um lugar, uma história!
Sou a escrivã da pequena que vive em mim, carinhosamente "ela" organiza meus pensamentos, me reporta para algum lugar da minha consciência que acredita que é possível trazê-la novamente a vida, assim espero.

_Cassi_
(>**<)

terça-feira, 17 de junho de 2008

Olhar










Algumas coisas me matam por dentro....








Se a mim fosse concedido um pedido universal, eu pediria proteção para as crianças, eu pediria a Deus que desse a elas o privilégio da infância.
Que nenhuma criança conheça a fome.
Que a pureza de seus olhos não seja maculada com a sujeira dos ignorantes.
Que a candura de seus corpos seja preservada como cristal.
Que a alegria as conduzam pelas mãos.
Que a paz repouse tranqüila e permanente em seus corações.

Quem ousa contra a vida, contra a paz, contra a integridade física e emocional de nossos anjinhos, haverá de pagar um preço alto, a prestação de conta será com a consciência!

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Diálogo com o amor



Numa pequena cidade chamada Esperança, localizada nas instâncias longínquas do coração, todos estavam ansiosos e com muita expectativa com a palestra que iria se realizar em homenagem a todos os namorados da região. Os boatos eram de que o palestrante vinha de muito longe, para realizar uma conferência para todos os namorados da pequena cidade.
Chegando ao local, todos podiam observar que os primeiros lugares estavam reservados, e que na última fila havia uma linda cadeira, toda revestida de veludo vermelho, também reservada. O clima de suspense pairava no ar, no grande auditório, todos pareciam muito felizes, os rapazes com gestos corteses as suas namoradas, um clima romântico tomava conta do lugar, meticulosamente decorado com rosas brancas e vermelhas, um suave aroma de sândalo perfumava o ambiente, conferindo a magia do momento.
De repente as cortinas do auditório se abrem, saindo de trás um velho senhor de cabelos brancos, sua aparência denotava uma pessoa muito sabia, sua figura era simpática e causou de imediato a empatia de todo público ali presente. O misterioso palestrante apresentou-se ao público revelando sua identidade, seu nome era Amor, estava ali para falar de relacionamentos humanos.
Amor convidou a todos que levantassem para receber seus discípulos, era para eles as primeiras cadeiras, todos de pé aplaudiam a chegada dos sentimentos. O primeiro a entrar foi a Sabedoria, depois em passos largos entrou a Paciência, em seguida a Dedicação, cheio de pompa atravessou o ambiente a Coragem, discretamente a Humildade tomou seu lugar e por fim elegantemente chegou o Perdão.
Amor iniciou a conferencia dizendo a todos que naquele momento seria revelado o segredo da felicidade nos relacionamentos humanos, os convidados de honra fariam as suas apresentações e considerações nos caminhos a serem percorridos na busca da tal felicidade. Amor revelou aos presentes que os caminhos do coração humano não conhecem outros rumos senão os da sinceridade, que o verdadeiro elo que une um casal aponta sempre para os horizontes da esperança.
A sabedoria apresentou-se a todos como sendo o barco que conduz nos momentos de dificuldade, ela aponta sempre os melhores caminhos, aconselha sempre no bem, no entanto é preciso silenciar tudo a volta para poder ouvi-la, seus recados são sutis, a sabedoria fala a alma e não aos impulsos.
Em seguida a Paciência lembrou a todos, que nela os casais encontrarão um antídoto infalível contra as desarmonias. A paciência é a conselheira do coração, ela não permite que sejamos guiados pela raiva, filha da malvada intolerância.
A dedicação iniciou seu discurso ressaltando que só está presente onde há amor verdadeiro, ela é autentica, não pode ser forjada, impossível um relacionamento verdadeiro sem extrema dedicação. A dedicação busca suas forças com a velha e nobre conselheira chamada generosidade.
Com ânimo a Coragem sacudiu o auditório com seu vigor, convidou a todos a buscar nela as forças para a concretização do verdadeiro amor. Não poderá haver relacionamento saudável se ambos não tiverem coragem para superar os obstáculos, coragem para seguir adiante esperando a visita da recompensa. A recompensa é aquela carta destinada a todos os casais que não desistiram no primeiro problema, a todos os casais que permaneceram unidos no propósito do amor.
A humildade falou acerca de sua participação na felicidade entre os que se amam, é fundamental trazer a humildade para servir-se no banquete dos relacionamentos. A humildade é aquela que protege os casais contra o traiçoeiro e malfazejo orgulho. Através da humildade os que se amam, não tem medo de reconhecer seus erros, seus medos, ao invés disso, se fortalecem na ajuda mútua, a humildade é por fim, a terra fértil onde é semeado o companheirismo. Depois de alguns anos de relacionamento, o companheirismo será como a cadeira de balanço na varanda da vida, embalada pelas mãos generosas do tempo, então ali onde o tempo passa, os dois se bastam, bebem o cálice do seu amor.
O perdão enfaticamente falou a todos, não há possibilidade de atingir a maturidade amorosa sem mim! Eu serei para vocês a novena sem fim, às pedras dum incontável terço da alma. Somente aqueles que amarem de verdade poderão me alcançar. Serei o grito de libertação clamando no peito dos amantes, as portas para a renovação. O caminho por mim apontado é por vezes de difícil acesso, para chegar até mim é preciso recorrer aos meus intercessores: a coragem, a paciência, a sabedoria, a dedicação irão ser a bússola indicando os caminhos da felicidade.
O amor agradecia aos sentimentos, quando de repente foi interrompido por um jovem rapaz que o indagou: - mestre, a quem pertence à última cadeira? Pois vejo que a mesma permanece vazia! Então o Amor lhe respondeu:
- esta cadeira pertence ao medo, ele não pode vir, soube que se envolveu numa briga com a vaidade, ficou refém do ciúme, refugiou-se na casa da solidão, a última noticia que tenho é de que o medo morreu rendido nos braços da fé.
Assim, todos de pé aplaudiam as lições ali aprendidas

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Onde você vê um obstáculo,
alguém vê o término da viagem
e o outro vê uma chance de crescer.
Onde você vê um motivo pra se irritar,
Alguém vê a tragédia total
E o outro vê uma prova para sua paciência.
Onde você vê a morte,
Alguém vê o fim
E o outro vê o começo de uma nova etapa...
Onde você vê a fortuna,
Alguém vê a riqueza material
E o outro pode encontrar por trás de tudo, a dor e a miséria total.
Onde você vê a teimosia,
Alguém vê a ignorância,
Um outro compreende as limitações do companheiro,
percebendo que cada qual caminha em seu próprio passo.
E que é inútil querer apressar o passo do outro,
a não ser que ele deseje isso.
Cada qual vê o que quer,
pode ou consegue enxergar.
"Porque eu sou do tamanho do que vejo.
E não do tamanho da minha altura."

( Fernando Pessoa)