Tempo de Recomeçar

Tempo de Recomeçar
"Essa história vai emocionar você"

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Sem saída


Hoje acordei invertida

Feita de entradas

Portas abertas

Janelas fechadas!

Papéis e livros manchados

Colecionam meus personagens

Paisagens em preto e branco

Sonhos miragens...



Hoje acordei quatro estações

Olhos verão

Boca primavera

Outono e inverno

Congelam vozes e versos

Tudo e nada ao mesmo tempo

Mundo desmaiado em contradição

Efêmero e eterno costuram silêncios

O medo é zoom na escuridão




Hoje acordei feito um grito

No vazio que o tempo recita

Onde tudo é mito

Ausência que nada explica




Ternos escondem corpos

Lenços e fotos umedecem lágrimas

O que importa estar perdida?

Se depois da chegada

Vem sempre a partida?

Se a vida passa, passa...

E a morte não passa

De uma rua sem saída!



(Cassiane Schmidt)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Amor?


Na sala, relógio e malas
Zíper pálido náilon ocre
Levam-nos em malhas
Papéis fotografia
Cheiro, café, SONHOS NÃO!

 
Para sempre é um deboche
Margens de ressacas
Num tempo feito de goles



O amor? Ah!
Peregrino de terras distantes...
Veste smoking e bebe uísque doze anos
Nunca está ao alcance
Utópicas mãos na cintura do tempo

 
Hoje veste trapos suburbanos
Tão raro e mais caro que diamante
Vive dentro de caixas de água
De vez em quando acaba!

 
Nasce na fonte
Acorda cachoeira
Dorme no rio
Morre pingo na torneira

Amor...?



(Cassiane Schmidt)

terça-feira, 13 de abril de 2010

Scooby (Anjinho)


E o céu estava muito triste e sem graça, então Deus veio buscar meu cãozinho!


sexta-feira, 9 de abril de 2010

Scooby (Anjinho)

E o mundo estava muito triste e sem graça, então Deus criou os cães!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Conto: Antes da Hora

Sempre gostei de avelãs e amoras frescas no café da manhã. Sem muito esforço consigo salivar as manhãs dos meus dias. Meu paladar guarda o doce caramelo da saudade que carrego na memória. Nunca imaginei que a saudade pudesse guardar tanta memória, ou é a memória que guarda a saudade?

Lembro-me de mamãe cantarolando umas músicas engraçadas nas margens do fogão, misturada ao cheiro calmo do café. Não sei por que o cheiro de café faz-me tão bem.

Meus olhos misturavam-se a cada pequeno gesto de mamãe, ela deslizava sobre a cozinha, do fogão a pia de louça, um sorriso para mim, vassouras, panos e pós, misturada em gestos castos e simples, ela era-me de uma bonomia insultante.

Papai pintava quadros e colecionava selos de aves. Celina, minha irmã, passava os dias em sua cadeira de rodas, seus olhos eram-me dois sóis verdes, brilhavam feito os brincos de diamante que mamãe usava para ir à missa.

Quando Celina sorria, abria-se um sorriso dentro de mim. Minha irmã sempre pedia-me para correr e andar depressa, dizia-me ela, que adorava imaginar-se sobre as minhas pernas. Na escola a professora disse que, aquele que conseguisse contar todas as estrelas do céu teria como prêmio um encontro com Deus e um pedido concedido.

Eu tentei contar as estrelas, mas sempre perdia as contas, ah, mas o pedido, fiz assim mesmo. Pedi a Deus que desse duas pernas novas a Celina, para que nós duas pudéssemos correr juntas.

Hoje moro com a vovó Inês. Passo todas as tardes, quando volto da escola, em frente da minha antiga casa. É estranho passar ali e ver o cadeado no portão, as janelas fechadas e a chaminé que nunca mais respirou nossa fumaça.

Na casa fechada, o cinza da saudade é o pisca-pisca da fachada.




Vovó disse que Deus sempre tem planos.



Tenho um fisgo no coração, como um puxão de orelha torcido, só que no coração. O tio Heitor disse-me, que papai vendeu nossa casa e levou mamãe e Celina junto com ele para encontrar uma nova casa para a gente morar. Não entendo porque não me levaram.
Eu vi um carro igual ao do papai todo amassado em frente à delegacia. Foi com a vovó que aprendi a rezar o terço e a ficar em silêncio. Ela sempre dizia-me que era para mim guardar as perguntas embaixo da língua. Meus oito anos não combinavam com os oitenta da vovó.

Com o tempo aprendi a guardar as perguntas embaixo da língua, mas meu coração queria falar e, por isso, a cada dia ele ficava mais apertado.

Tem dia que a saudade da mamãe sobe na garganta e dá um nó, falta-me o ar, penso que vou morrer.

Os olhos da vovó eram azuis, depois que papai e mamãe viajaram para comprar uma outra casa, ela passou a vestir um lenço preto na cabeça; Ela desperta as seis horas da manhã, acende três velas e entre choros e rezas, abre as janelas da casa.

De umas manhãs pra cá, não tenho ido à escola, o fisgo no coração e a febre aumentaram muito. Minhas pernas doem e meus pés parecem dois pãezinhos franceses.

Passei a sonhar com Celina e com o papai e mamãe, sonhava que eles vinham me buscar em nossa casa e não encontravam-me.

Por isso, assim que vovó saiu para ir a igreja, fugi para minha casa, eu iria esperar meus pais lá.

Entrei pelos fundos, pela velha e estreita cerca que papai construiu. A grama estava crescida, muitas folhas velhas nela dormiam. As calçadas estavam pálidas de pó, o pomar jogou todas as frutas fora.

Subi as escadas e senti-me profundamente feliz, sentia-me mais perto deles, a distância parecia extinguir-se a cada degrau que subia. Estar em casa novamente era como ganhar um abraço apertado na saudade.

Tirando o pó dos últimos rastros e as fuligens sonoras de mil vozes arranhando as paredes, tudo parecia estar igual;

O único barulho vinha do relógio, na parede da cozinha, ele ainda funcionava, nem o pó conseguiu alcançá-lo. Parecia vivo, mais que isso, parecia contente. Seus ponteiros reluziam em meio as sombras da casa.

Papai sempre contava-nos que os relógios eram servos de Deus; Eles colecionavam cada segundo da nossa vida, e jamais repetiam um instante sequer na sua coleção. Quando um relógio parava, era Deus abrindo uma porta para alguém entrar, era o que papai dizia-nos.

Abri todas as gavetas que encontrei, as gavetas guardam pedacinhos das pessoas; Eu misturava meus olhos as coisas absurdamente intimas que moravam nas gavetas do papai e da mamãe, acima de tudo, cheiros, ah! Quantos cheirinhos.

No quartinho de mil coisas, como mamãe chamava, velhos brinquedos de velhas crianças criavam traças. Celina deve ter esquecido de levar sua cadeira de rodas, pois ela estava ali, misturada as nossas bonecas; será que ela ganhou pernas novas?

Por que eles não me levaram junto para escolher a casa, por que?

O espelho no quarto dos meus pais refletia a janela, que abria um céu dentro dos meus olhos.

A febre estava quente, parecia cozer minhas bochechas. Enquanto a tarde triste e chuvosa lambia o telhado, adormeci no sofá bege, bordado com florinhas verdes. Acordei com barulho de passos na escada. Fui até a porta da cozinha e vi uma velha subindo as escadas. Ela vestia um manto negro, com muitos ponteiros e números espalhados pelos cabelos e pelo corpo. Seus olhos pareciam dois relógios gritando tic-tac nos meus ouvidos.

Ela estendia-me as mãos querendo alcançar-me. Quando eu dava um passo para trás ela dava um para frente, quando eu dava um passo a frente ela recuava. Fiquei cansada e com muito medo; encima da fotografia da mamãe, chorei baixinho todos os fisgos do meu coração. Acabei adormecendo novamente no sofá.

Senti o rosário da vovó massageando-me todo o corpo. As luzes da casa foram acendendo-se uma a uma em cada cômodo. O perfume agridoce da noite invadia as janelas que se abriram. As cortinas iam e vinham e quando iam descobriam um céu enfeitado de estrelas.

O céu todo parecia um trigal de estrelas douradas se abrindo dentro de mim.

Meus joelhos coçaram o chão, senti uma vela despindo-se na cera, escorrendo até meu coração, acho que é a voz da mamãe.

Degustei-me por mais uns instantes, até que meus braços iam se cruzando num laço negro perdiz. Na febre que dormia em mim, vi um anjo levando os fisgos e toda a saudade que eu sentia.

Acordei com o barulho do tilintar da louça de mamãe; o cheiro de tinta das telas que papai pintava, novamente ardiam meu nariz, o chão rangia sob a cadeira de rodas de Celina, eles voltaram!

Corri até a cozinha e deparei-me com mamãe as margens do fogão, ela virou-se, e sorrindo, acenou-me um beijo.

- Vocês voltaram, mamãe!
- Não minha querida, você que acabou de chegar!

Na parede, o relógio finalmente, parou de funcionar.



(Cassiane Schmidt)

quarta-feira, 31 de março de 2010

Inês


80 anos. no bolo de velas? Não, em Inês, morando nela,

Colecionando seus cabelos.

As velas ficam no altar, no altar, não mexam, não mexam no altar

Onde moram santos e promessas, onde ela está!
Joelhos e solas, chãos e bocados de histórias.


Nos dedos esporas artroses entortam anéis que não existem mais.

A_final, 80.

Paz?

- Cais, talvez, mas só talvez.

Manhã fé, tardes e noites horizontal – cama -
Muda? Alguma coisa muda?

muda é a cor da chuva que o telhado chora.
O diálogo com / entre os joelhos,
lençol branco da juventude que o tempo molha.
Substâncias químicas dos medos

Mas a fé é que vale para Inês
Capaz de benzer trovoadas com ramos
Ficar encantada com flores
Tomar sorvete como uma menina de sete anos.

O tempo passeia no sorriso dela,
Cora suas bochechas murchas pálidas
Os anos roeram ossos e dentes, mas as plumas ficaram
E o que mais importa? Não sei!

Talvez o sabor do tempo lambendo o suor das janelas
Asas quebradas na fechadura da porta
Desavezo de memórias em jovens gavetas
Cabelos brancos cinzas horas
Toalhas e rendinhas velhas vestindo mesas
Olhos azuis tipo anzóis
Sou peixe pra ti minha senhora.

Rosários massageados IMPRESSIONAM o carcomido dos bagos
Quanta reza!
Não interessa o destinatário das tuas orações
Caminho descalço nas tuas páginas,
Feito nuvem pendurada no céu, no seu varal umedeço.
Inflamado são os anos, 8 ou 80, sempre haverá zíperes abotoando nossas malas, fechando nossas entradas.

....Exorcizadas câimbras de poros e restos de lágrimas,

                                   sobram-lhe as plumas nos cabelos de mais um mês


Nos cabelos de Inês,




(Cassiane Schmidt)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Conto : "Rua sem saída"


A casa onde eu moro fica no final da rua. A minha casa não tem número, todos chamam-na apenas de a última casa.
O meu quarto fica nos fundos, para chegar nele eu preciso atravessar o imenso corredor que abre seus braços para os outros cômodos da casa, que não são muitos, apesar de o corredor ser grande.


Todos os dias ao acordar, a primeira coisa que vejo, ao abrir a janela, é a frase negra na placa amarela: Rua sem saída.


Muitos carros fazem a volta ali, com o tempo os carros começaram a parar em frente de casa, dos carros saíam homens, e, algumas poucas vezes, mulheres.
Eles saíam dos seus carros bonitos, em seguida, Esther lhes convidava a entrar em nossa casa. Esther disse-me que as pessoas costumam se perder e param ali para pedir-lhe informação.
Não entendo porque a Esther precisa se arrumar toda, passar perfume e escovar os dentes e depois me mandar sair de casa, só para dar informação!


Por que essas pessoas perdidas não compram mapas? Eu vi na banca do tio Amadeu vários mapas para vender, pedi a Esther que comprasse mapas e entregasse aqueles que se perdem na nossa rua, assim, eu não precisaria ficar a tarde toda sentada na calçada esperando eles irem embora.


O pior de tudo é quando um vai embora, já chega outro perdido pedindo informação. Não sei porque Esther demora tanto para explicar os nomes das ruas, talvez porque nosso bairro tenha muitas ruas, a professora Edite falou que o bairro onde eu moro, tem mais de 25 ruas, talvez seja por isso, talvez.


O batata frita é meu melhor amigo, ele fica comigo durante a tarde, quando Esther manda eu sair de casa, ele deita-se nas minhas pernas e me faz feliz, tudo nele me distrai.
Na minha casa, quando chove muito, as paredes ficam molhadas e atras do meu guarda-roupa nasce uma cachoeirinha.


Meu pai trabalha numa fábrica de chinelos, ele passa o dia inteiro fora, só volta a noite, quando eu já estou na horizontal do meu cansaço.


O batata frita me avisa quando o papai está chegando, eu sei certinho quando ele entra em casa, a porta da cozinha geme e ouço barulhos de xícaras na mesa, meu pai adora café.
Às vezes ele espia na porta do quarto para ver se estou dormindo, quando tenho sorte, ele entra bem devagarinho e coloca uma bala de menta e dois chicletes de tutti-frutti encima da minha mochila, eu sorrio embaixo do cobertor e durmo feliz.


Durante as tardes na rua, o que mais me incômoda é a poeira que acorda nos pneus dos carros. O pó vermelho amarelado da estrada se mistura aos meus cabelos e meus olhos ardem. A minha asma vem aumentando muito, passo as tardes puxando fôlegos.
Quando o dia está nublado as coisas melhoram um pouco, adoro também quando cai aquela garoa fininha que faz a poeira sossegar.


O dia da semana que mais gosto é quarta-feira, pois este é o dia de folga do papai e também porque ninguém se perde na nossa rua nesse dia. Esther fica irritada, briga comigo e com ele, nós nunca lhe damos motivos, mas ela briga mesmo assim, Esther fala alto, com as mãos na cintura e com olhos fervendo implica com tudo.


Havia uma árvore em frente da minha casa, era ela quem me protegia do sol e do calor, mas os homens do carro verde cortaram-na. Um dos galhos estava caindo sobre os fios de energia elétrica e, por isso, toda a árvore foi cortada, restou apenas o toco, onde eu me sento.
Eu não sei porque a árvore toda teve que ser cortada, se era apenas um galho que estava fora do lugar, um único galho custou-me toda a sombra.


Foi nestas tardes cozendo no sol, que meus olhos aprenderam a colecionar pedras. Conheço todas as pedras da minha rua, seus tamanhos, cores, peso e até o cheiro engraçado que as pedras têm.
A rua também me é inesquecível, pois foi ali que vi meu amigo bata frita morrer atropelado, um carro que parou em frente de casa não viu quando meu amigo veio correndo ao meu encontro e passou por cima dele.


O homem não se importou, mas Esther sim, ela se importou muito, brigou comigo e mandou eu dar fim nesse cachorro pulguento! Depois que ela e o homem entraram em casa, eu peguei o batata frita nos braços, ele ainda gemia e balançava o rabinho, seus olhinhos castanhos se abriam e fechavam, parecia que ele queria me dizer alguma coisa. Levei-o atrás do muro e fiquei agachada com ele em meu colo, eu cantei umas músicas que aprendi na escola, queria ver se ele parava de chorar. Fiquei com o batata-frita até ele dormir. Ele dormiu.
Sem o meu amigo, as tardes passaram-me a ser eternas.
De manhã vou a escola. É o papai quem me leva, a fábrica de chinelos onde ele trabalha fica na esquina da escola onde eu descanso.


O papai é engraçado, mas não quando chora, quando chora ele é triste. Ele não quer que eu o veja chorando, mas quando eu vejo, ele esconde as lágrimas dentro dos dedos, e disfarça dizendo que foi uma pedrinha que caiu no seu olho. Ah, se papai soubesse as pedras que eu escondo nos meus olhos.
De manhã acordo cansada, mas mesmo cansada vou feliz para a escola. Sinto tanta saudade do batata frita.


A professora Lourdes tem cheiro de fumaça e veste umas roupas engraçadas, mas ainda assim é querida. No recreio eu chupo pirulito, canto e pulo amarelinha com as meninas.
Semana passada parei de fazer xixi na cama, o papai me trouxe um cachorrinho de pano como presente. Algumas noites sonho que estou fazendo xixi e faço um pouquinho na cama, mas só um pouquinho.


Eu sei a hora exata que Esther vai me chamar para entrar em casa, é sempre depois que a dona Maria chega em casa com uma sacola de pão, sempre que o Heitor, filho do dono da farmácia, passa de carro com a namorada e buzina para mim, e, finalmente, quando o sol se esconde atras da terceira janela do canto esquerdo do prédio que fica na rua ao lado, nessa hora a porta se abre e Esther me chama.


Depois desse horário ninguém mais se perde na nossa rua.
Nessa hora meus joelhos estão inchados, minha pele arde e eu sinto como se mil formiguinhas cochichassem dentro dos meus pés.
Quando eu tinha o batata frita eu corria um pouco, brincava um pouco, mas sem ele, fico só sentada mesmo, acho que as formiguinhas entram pelos meus dedos e por isso meu pé fica assim.


Eu não entendo porque cortaram a árvore toda, se era apenas um galho o problema dos fios estúpidos de energia elétrica.
A asma me tira a fome e me dá muito sono, mas um sono que a falta de ar não deixa dormir, então para que sentir tanto sono? Bem que a asma podia ser no estômago, assim, quem sabe, a comida mataria a fome da falta de ar.


Quando eu entro em casa, depois que o sol me atravessa, vou tomar banho, quando estou muito triste não tomo banho, durmo assim mesmo. Esther abre a porta e começa a gritar, às vezes ela ri sem parar, as vezes chora, acho-a esquisita, vai ver que ela fica cansada de dar tanta informação, acho que sim, pois a noite ela fica estranha, anda torta, tropeça nas coisas, fede, fala demais e se repete.


Depois do almoço, Esther me manda sair de casa, eu já acostumei, e saio antes de ela mandar. A minha amiga Thelma emprestou-me o guarda-chuva de sua avó, ele me protege do sol, assim eu não ardo tanto a noite.

O bata frita me faz muita falta.


Teve um dia que Esther me chamou para entrar em casa mais cedo, foi logo depois que o homem do carro preto parou em frente de casa e deu-me um pacotinho de balas, eu entrei, naquele dia eu misturei-me as pedras que colecionava.

terça-feira, 16 de março de 2010

Dudu cão

Ô Dudu
Por que teve que ser assim
Sem latir pela última vez
Sem olhar pela última vez
Sem dançar nos pés da gente
Empinar as orelhinhas contentes?

E agora, me faça o favor de dizer onde está!
Me cante teu último latido
Cave um pouquinho mais a sala de estar da nossa saudade
Persegue meus passos na grama da tua ingenuidade

E aqueles olhinhos sarados,
Os pés arranhando nossos passos
Os latidos abrindo o portão,
Onde estão?
Eu tentei te achar nas ruas da nossa casa
Te chamava, te implorava
Mas você se disfarçou de noite
Acho que um anjo te vestiu de asas
E te levou, meu amor...

Então, voa querido
Late feliz sobre as nuvens
Sei que o tempo é só um detalhe
E você foi na frente
Abrir os portões
Da nossa casa lá no céu, né?


Ô Dudu

Deve haver um canil aí no céu
Cheio de amiguinhos e de ossinhos gostosos
Um céu da cor da saudade que deixaste aqui!
Mas vá em paz cachorrinho
Nós cuidamos do Sabicho pra ti

Descansa tuas fiéis patas
Que nós seguimos daqui

Até um dia, Dudu!

Três tempos para a morte



I

O relógio na parede do quarto
Faz-me delirar na rotina
Inglória dos ponteiros.
No roteiro gris das horas
Assoalho minhas retinas

O silêncio da gaveta
Devora os poros de mil arrepios
Fortes ou fracos
Cedo ou tarde
Em nosso cais aporta o navio
Laço negro preso na proa
Canto funéreo de mil ais
Um sorriso debochado ressoa
- Sobe, sobe, minha gente:
A morte não cabe numa canoa

A vela na cera despe-se
Ao longo do mar que incendeia
Meia-luz de tormentos
Alumiando o sorriso agreste
No caramelo dos sentidos inocentes

A morte é folha verde viva
Arrancada da árvore morta
Feito fruta cozida
No ventre de uma compota


O olhar na pálpebra dormida
Repousa num ponto
Esfria e reflete:
- O que sobrou de tudo?
- O que levo comigo?
Haverá outro mundo,
Outros amigos?

Descalço.


II


Carros e corpos seguem em romaria
Pelas ruas estreitas do cemitério
Uma laje se abre vazia
Esboça o trono do último império


Não vou ceder a sepultura
Nem ao estreito caixão encerado
Ocultarei meu corpo na pele crua
Em mim nada será enterrado!

Na pele sedosa dum poema
Vou refrescar meus versos
Um anjo destilando cantilena
Lança-me dos céus o ingresso

Não vou pagar a conta deste espetáculo
Este cemitério cinzento de flores artificiais
Onde me estende os braços um insolente buraco
Quero meu corpo nas margens do cais
Onde nada é para sempre
E tudo é nunca mais!

Não quero saber de santos e rezas
Vou sem pressa por outro caminho
Sem este chão feito de pedras
Quero outro ninho!
Um lugar fresco feito de sombra
Onde sol não queime a saudade
Onde as flores sejam de verdade
A morte um gole envelhecido de vinho. Ah!



III


Hei de acordar estirada
Com as mãos cheias de pérolas
Num trigal de nuvens douradas
Longe do escuro e frio cemitério
Onde conspiram as almas penadas!

Hei de ser flor numa nuvem jardim
E lá de cima do cismo oculto
Gargalhas de mil anjos contentes
Acordam todos os mundos

E no céu claro da fé que me guarda
Serei das estrelas o vulto
A lua será minha enseada
Deus um repouso oculto
Nas emoções cansadas

Vou nadar na espuma clara do céu
Feito um passarinho nas asas ritmado
Feitos poemas num destino cordel
No vazio das minhas linhas
Um lugar sossegado
Onde meu versos possam dormir
Acordados.


(Cassiane Schmidt)

quinta-feira, 11 de março de 2010

r o t i n a



A rotina indigesta a retina
Ratifica linhas retas na visão
Alimenta o hábito incrusto
Não reconhece setas.
Na rotina
O tempo segue em procissão
Na mesmice sagrada das coisas
Veste pseudo certezas.
Não tem passaporte
Gruda na parede das pernas
E fecha os olhos quando dorme.
Na obviedade com que se move
Vê tudo sempre na exata medida
Até o ponto de não ver nada
Daquilo que já não via.
Tem tudo ao alcance
É horizontal
Longe 6565656656565 da rotina
A vida reage
Do avesso avança
Atina
Do certo ao caos
Gira rápida e transversa
Como agulhas costurando linhas
Desfazendo o chão-nosso de todo dia
Descobre o novo
Contempla a dúvida
Ruma o contrário
Troca de roupa
Erra a mão
Vira a página
Todo dia.
Quando enche
Esvazia.


Cassiane Schmidt

terça-feira, 9 de março de 2010

A casa


Na casa
A pia pinga
A laje vaza
A vida escorre
A mulher esconde
Dentro da parede
A raiva que sente
Da vida que leva.
O homem grita
A menina corre
O medo tem voz.
A cama está quente
A comida queima
O homem fuma
A mulher fama
A menina sufocada
Coça a cabeça dos piolhos
Com os olhos colados no chão
No varal a roupa suja o pó da rua
O mato matou a grama do quintal
O homem de preguiça passa mal
O relógio na parede chora
Implora para descansar
Da rotina cinza da casa
Que dorme ao acordar

.




(Cassiane Schmidt)

Última Canção


Me deixe
Vá embora
Me deixe a sós com a solidão
Hoje não me interessam seus discos, seu ritmo, seu tom
Hoje não!

Hoje quero casa vazia
Ouvir atrás das cortinas
Verdes segredos de solidão
Quero poesia na mesa
Ser a voz da canção

Me deixe
Vá embora
Me deixe a sós com a solidão
Hoje não me interessam tuas rimas, tuas cismas, tuas mãos
Hoje não!

Hoje quero dançar no vazio dos teus passos
Arranhar teus frágeis desejos
O chão nosso de cada dia
Levou todos os caminhos pro fim
Hoje acordei feito pesadelo
Tua pior companhia

E não me olhes assim com olhos de partir
Olhos de nunca mais
Hoje sou o cais que leva e não traz
Recolha seus braços e feche a porta ao sair
Não esqueça de levar as chaves
Pois amanhã quem sabe
Será cedo demais pra mim

Mas não me olhes assim, não insista
Hoje sou página virada
Sua última canção!
´
´
´
´
´
(Cassiane Schmidt)

Tudo e nada


Tudo e nada de nós dois foi o que restou
Naquelas tardes de domingo
Onde cantávamos o papa é pop e ríamos
Secando copos de guaraná com Scotch
Eu não percebia que seus gestos e cores
Bordavam em mim uma sina
E que o tempo nos levava pelas mãos

Depois da varanda e das tardes do nosso amor jovem
Veio a noite sobre nós
Feita uma ressaca inevitável do tempo
E chorei baixinho atrás da porta nossos segredos

E o que fizerem de nós esses anos?
Quero as chaves do nosso mundo
Chega de colecionar segundos!
Vou invadir teu sossego profano

Ainda ontem te vi passar na rua
Você não me viu
Eu estava sentada em cima do muro que erguemos juntos
Alucinada de ausência e de saudades tuas

Mas como vou convencer meu coração
Que você mudou de rua?
Que não veste mais aquele jeans desbotado
E não canta mais on love puxando um trago?
.
.
.
(Cassiane Schmidt)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Não vá



Não vá. Não agora, não nesse instante
Espere um pouco mais
Do caos feito de nós,
entre


Não vá!
É tarde, chovem-me os olhos
O vazio que desejas é escuro
Desfaz esse olhar agreste
Estes braços feitos de muro
Não vou abrir as portas!
esquece

Sua voz combina com meu cheiro
Meu olhar encaixa-se no teu beijo
Teus braços são do tamanho do meu medo
Minhas mãos servem nos teus vícios

Espere as janelas acordarem
Em nossos lençóis.
Vamos conversar com as flores
Que plantamos juntos.
Colecionar sorrisos a sós
Aquecer o frio dos invernos
Mas que inferno, Não vá!
Feche a porta.


As chaves estão quebradas
Dentro dos ossos da rotina
Vamos beber vinho?
Guarde a despedida no armário
Na velha caixa de naftalinas


O café está na mesa
Há dois lugares,
E uma tristeza.

Pra quê essa história de despedida,
Se o mundo acaba na esquina
De nossas exatas medidas?

É cedo para partir
Sempre será.
Vamos beber chuva juntos
Arranhar os lábios na areia do primeiro beijo
fique
Estenda seus braços sobre meus desejos
entre

Espere um pouco mais,
Só mais um minuto
Entre no quarto e volte sorrindo
Vou arrancar os espinhos do teu olhar
Aspergir de tua voz doçura
Vou quebrar tuas roupas sujas
Arranhar seus discos e cuspir algemas
Dentro de nossas figuras

Vamos aguardar juntos o fim
Ele não vai nos encontrar.
Vou convencer o destino a esquecer-nos
Não há outra saída
Senão a porta de entrada
Vou apagar as luzes
Desfazer essas malas
Fingir que está tudo bem
Hoje você dorme comigo,
Amanhã também.


- Boa noite, querido.
- ...
´
(Cassiane Schmidt)

domingo, 7 de março de 2010

Nascimento da poesia



Na velha casa, na florida e estreita rua, mora um poeta. A casa é antiga como os cabelos dele.
Passo os dias a observá-lo, às vezes, ele me parece tão próximo, quase dentro de mim.
Ele não sabe que eu existo, tampouco desconfia da inquietação que me provoca.
Todas as tardes vejo-o debruçado sobre a velha janela, compondo versos feitos de olhares distantes.

certa feita ouvi-o recitar uns versos, eram lindos versos, escondi-me no vão do muro que nos separa, e fiquei quieta, ouvindo as palavras frágeis que dançavam na voz do poeta.
Ele declamava, ria, chorava, e depois calava tudo a sua volta num silêncio reparador.

Um dia a curiosidade e inocência de menina, levou-me até a morada do poeta, com coragem eu bati levemente na porta, que se abriu feito um sorriso, com o olhar dele assentido minha presença, feito um abraço.


Sentados na varanda, contemplamos o final de tarde daquele dia em que nos conhecemos.
- O que te trouxe aqui, menina?
- Vim descobrir do que é feita a sua poesia, pois quando eu a ouço, meu dia se enche de alegria e meu coração se acalma. – Respondi, sorrindo com os olhos.


Ele também sorriu com os olhos e depois com os lábios e por fim, sorriu com palavras, dizendo-me:
- Menina, a poesia é feita de tudo que podes imaginar, das coisas belas até das feias, de tudo que nos toca alma, de tudo que nossas mãos não podem tocar; como as asas dum pequeno pássaro sobrevoando o azul do teu olhar.


A poesia é feita da cisma do poeta em dizer aquilo que ele leva na alma, isso implica dizer muito com quase nada.
Depois em silêncio, meu amigo revirou-se inquieto buscando a paisagem ao nosso redor e disse-me:


- Olhes naquela direção, lá onde o sol se deita, me diga o que vês?


- Vejo o sol se pondo, árvores, um bando de pássaros, as montanhas, o rio e o céu...


- Pois bem, vou dizer-te o que vejo, desse modo, você poderá sentir não do que é feita a poesia, mas de como ela nasce, mas eu não vou olhar para lá com os meus olhos cansados e cegos, vou olhar com o coração do menino de oito anos que mora em mim.
Depois de uma pequena pausa, com o olhar iluminado e com ares de devoção, prosseguiu o amigo menino poeta:


- Vejo a noite caindo feito um abraço de Deus sobre as montanhas, as nuvens recolhendo suas franjas brancas do firmamento, apagando as luzes do céu para descansarem.
O pipilar entardecido dos pássaros avisa os anjos de que Deus vai acordar. A lua é rua mais movimentada do céu, até o menino Jesus costuma caçar cometas por lá. As estrelas são flores que Nossa Senhora plantou no céu para iluminar nossas noites.
Vejo as montanhas trocando carinhos com os ventos, arvores cochichando verdes segredos de amar.
Os pássaros adormecendo seus cantos em velhos galhos feitos de pousos adolescentes.
O vento morno que refresca-nos a alma é o hálito fresco de Deus quando ele reza.
O rio caminhando entre pedras, segue feliz, pois sabe onde quer chegar. A poesia é feliz em ser triste, caminha alucinada na alma dos poetas, nunca sabe em que coração irá repousar.
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Cassiane Schmidt