sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Entardecer



Construi pontes sobre a saudade
Respirei distâncias em noites tristes
Encontrei vestígios de lembranças
Nas frestas de desejos virgens

Rasguei o escuro dos olhos
Para ver o sol nascer
Janelas feitas de pássaros
Amar é entardecer

Versos inacabados
Mastigam palavras,
Verdades mentidas castigam
Comungam mudas
O silêncio do adeus!


Muralhas sentenciam lados
No ventre do último olhar
Caminhos feitos de dor
Abraços feitos de chegada
Dois lados para o amor...

Os anos esculpem esquecimento
O destino mergulha renascer
Manhãs florescem na janela

Amar é entardecer!





Cassiane Schmidt

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Incertezas



A incerteza é patrocinadora do medo
A insegurança mora no futuro
O presente passa ausente pelas inquietações humanas
A infância comunga a inocência
Garimpo ouro no olhar das crianças
: minha única/última esperança!
Perdemos o diário de bordo,
Não dá mais para fazer muitos planos
Inseguros e ansiosos: caminhamos
O destino é dado as surpresas
Faz seu alvo, todas as nossas certezas!
As ruas estão enfeitadas de violência
É difícil abrir a janela, fechar a porta, dizer tchau
O amanhã pode ser fatal!
Somos cheios de tantas certezas, vomitamos verdades enlatadas,
Senhores do destino?
Somos nada!
Útil e fútil se confundem o tempo todo!
Passos apressados se espalham por todos os lados
Anunciam dias desatinados dentro do tempo!
A indiferença é arquiteta da solidão
Tudo é normal!
A normose virou apresentadora de tele jornal
Matar e morrer rotina banal
A farmácia na esquina vende capsula de felicidade
A medicina anuncia um tratamento milagroso contra ansiedade
Anfetaminas e benzedrinas produzem alegria!
Incertezas
Perdemos a medida das coisas
Oito ou oitenta
Tudo ou nada
Desequilibro: doença!

A imperfeição é sempre um ponto de vista
Amar a si mesmo é o maior desafio
Encontrar a paz é descobrir a vida
No fim de tudo a única coisa que importa
São os amores que cultivamos
Os abraços quentes que temos
Afetos raros verdadeiros!

(Cassiane S.S)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Cem títulos


Para distrair a tristeza
Criei cem títulos para a alegria
Pintei sorrisos na parede da casa
Enfeitei o jardim com girassóis
Fiz cópias da felicidade
Construí um muro dentro da solidão
Vesti os pássaros com asas
Para que eles pudessem voar
Bem alto
Até onde eu não pude chegar

A distância aproxima o pensamento
A rotina para o amor é veneno
Quando me faltam as palavras,
Confio mais nos meus sentimentos

Para distrair a alegria
Mergulho no silêncio que mora em mim
Faço as pazes com as horas
Invento pretextos para sorrir
Arranco os espinhos das rosas
Esqueço o verbo partir

Os anos vestiram a alegria de mito
Vivo presa a outro mundo
Dias escuros formam sombras
Erguem muros
Ser feliz é um absurdo!

Para distrair a tristeza
Vou esquecer todas as respostas
Apagar os pontos de interrogação
Fechar o livro

Cassiane Schmidt

terça-feira, 28 de julho de 2009

Partes do Tempo



A chuva que o céu chora, apaga a poeira que o vento esconde.
Os dias esquecidos no calendário derrubaram a parede da casa.
A lagrima que nasce no olho, revela que a saudade mora longe
Descobri onde a tristeza mora, ela não fala, ela chora.
O Sol esqueceu o pôr, o dia esqueceu de dormir.
O vento carregou uma folha da árvore, junto com ela foi todo o jardim.
Quando o sol se põe, o céu está azul, os pássaros cantam e as crianças brincam, Deus sorri!
Vi a esquina debruçada na janela, os anos parindo dias, o espelho transformando a face.
Na janela a vida passeia, leve, ligeira.
O chão afunda com os passos do tempo, o tempo não caminha, cava.
A rua é feita de caminhos desatinados.
Esquinas dividindo sonhos, papeis quebrados.
O relógio está sem pilha, os dias eram compridos.
O tempo dormia na varanda da casa
É preciso aproveitar, tudo, sempre, mais, muito mais
Antes que:
O tempo acorde,
O relógio caminhe
A janela se feche
A brincadeira acabe
O vento soe forte
O sol se ponha
A criança durma

Antes que Tudo vire depois!



Cassiane S.

domingo, 19 de julho de 2009

Naufrágio



A saudade naufragou em meu coração
Âncora lançada no mar de contradição
A saudade é sempre imperfeita
Cheia de tantos vazios
Caminha descalça pela memória,
Vestida de solidão

Saudade sinto de tantas coisas,
Até das coisas que não sinto mais
De tudo que foi, que virá,
A vida é um cais
: embarques e desembarques
Até logo, nunca mais...
Caos!


Muitos caminhos carregam meus passos
Tatuei no tempo todas as dores
Desenganos e erros
Medos e amores
Tudo guardado na sombra do vento

Fui tão longe, cheguei tão perto
Desatei os nós da solidão
Bordei a esperança em fino tecido
Para a tristeza, disse muitos: não!

O entusiasmo é tão adolescente
Sonhos grandes escondem-se em pequenos vãos
A felicidade sempre me foi tão jovem
Nuvem que o sol apaga
Cortina que escurece o quarto
6
Porta fechada!


Cassiane Schmidt

quinta-feira, 16 de julho de 2009

...



O tempo escala os ponteiros do relógio
Maldito Tic-tac
Outro dia nasce


O dia nascido é uma página virada
Tantas vírgulas, muitos pontos finais
Sintaxe difícil das horas
Singular vencendo plurais,
: solidão

Tantos sentimentos conjugados
Em todos os tempos
: passado.

As manhãs da infância me beberam toda
Jamais me recuperei
Os goles daquelas manhãs coloridas
: ressaca

O tempo costurou a alegria de menina
Vivo costurada de lembranças
De tudo o que foi
: infância


A capa do livro é dura
Primeiras páginas, coloridas
As últimas, escuras.

Ponto final
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Cassiane Schmidt

terça-feira, 14 de julho de 2009

derrame



O derrame

d
e
r
r
a
m
o
u

a velha sobre a cama
As rugas desenham muitos caminhos no rosto da velha,
escondem uma dor
uma alegria e duas tristezas

A morte é jovem
A morte é um passo,
não é boa, nem má
É morte,
é fácil.


A morte é da cor das paredes do quarto:
amarela suja fria
da cor do vento morno que invade
a melancolia

O derrame e s p a l h o u
o juízo da velha
Esquecimento
Choro
Cheiro
Espera
Cadeira de rodas
Velas e santos
Cama velha

Vasos sanguíneos transbordam,
estouram
Cérebro quebrado,
derramado dentro da velha, na cama



c.s