Tempo de Recomeçar

Tempo de Recomeçar
"Essa história vai emocionar você"

terça-feira, 6 de abril de 2010

Conto: Antes da Hora

Sempre gostei de avelãs e amoras frescas no café da manhã. Sem muito esforço consigo salivar as manhãs dos meus dias. Meu paladar guarda o doce caramelo da saudade que carrego na memória. Nunca imaginei que a saudade pudesse guardar tanta memória, ou é a memória que guarda a saudade?

Lembro-me de mamãe cantarolando umas músicas engraçadas nas margens do fogão, misturada ao cheiro calmo do café. Não sei por que o cheiro de café faz-me tão bem.

Meus olhos misturavam-se a cada pequeno gesto de mamãe, ela deslizava sobre a cozinha, do fogão a pia de louça, um sorriso para mim, vassouras, panos e pós, misturada em gestos castos e simples, ela era-me de uma bonomia insultante.

Papai pintava quadros e colecionava selos de aves. Celina, minha irmã, passava os dias em sua cadeira de rodas, seus olhos eram-me dois sóis verdes, brilhavam feito os brincos de diamante que mamãe usava para ir à missa.

Quando Celina sorria, abria-se um sorriso dentro de mim. Minha irmã sempre pedia-me para correr e andar depressa, dizia-me ela, que adorava imaginar-se sobre as minhas pernas. Na escola a professora disse que, aquele que conseguisse contar todas as estrelas do céu teria como prêmio um encontro com Deus e um pedido concedido.

Eu tentei contar as estrelas, mas sempre perdia as contas, ah, mas o pedido, fiz assim mesmo. Pedi a Deus que desse duas pernas novas a Celina, para que nós duas pudéssemos correr juntas.

Hoje moro com a vovó Inês. Passo todas as tardes, quando volto da escola, em frente da minha antiga casa. É estranho passar ali e ver o cadeado no portão, as janelas fechadas e a chaminé que nunca mais respirou nossa fumaça.

Na casa fechada, o cinza da saudade é o pisca-pisca da fachada.




Vovó disse que Deus sempre tem planos.



Tenho um fisgo no coração, como um puxão de orelha torcido, só que no coração. O tio Heitor disse-me, que papai vendeu nossa casa e levou mamãe e Celina junto com ele para encontrar uma nova casa para a gente morar. Não entendo porque não me levaram.
Eu vi um carro igual ao do papai todo amassado em frente à delegacia. Foi com a vovó que aprendi a rezar o terço e a ficar em silêncio. Ela sempre dizia-me que era para mim guardar as perguntas embaixo da língua. Meus oito anos não combinavam com os oitenta da vovó.

Com o tempo aprendi a guardar as perguntas embaixo da língua, mas meu coração queria falar e, por isso, a cada dia ele ficava mais apertado.

Tem dia que a saudade da mamãe sobe na garganta e dá um nó, falta-me o ar, penso que vou morrer.

Os olhos da vovó eram azuis, depois que papai e mamãe viajaram para comprar uma outra casa, ela passou a vestir um lenço preto na cabeça; Ela desperta as seis horas da manhã, acende três velas e entre choros e rezas, abre as janelas da casa.

De umas manhãs pra cá, não tenho ido à escola, o fisgo no coração e a febre aumentaram muito. Minhas pernas doem e meus pés parecem dois pãezinhos franceses.

Passei a sonhar com Celina e com o papai e mamãe, sonhava que eles vinham me buscar em nossa casa e não encontravam-me.

Por isso, assim que vovó saiu para ir a igreja, fugi para minha casa, eu iria esperar meus pais lá.

Entrei pelos fundos, pela velha e estreita cerca que papai construiu. A grama estava crescida, muitas folhas velhas nela dormiam. As calçadas estavam pálidas de pó, o pomar jogou todas as frutas fora.

Subi as escadas e senti-me profundamente feliz, sentia-me mais perto deles, a distância parecia extinguir-se a cada degrau que subia. Estar em casa novamente era como ganhar um abraço apertado na saudade.

Tirando o pó dos últimos rastros e as fuligens sonoras de mil vozes arranhando as paredes, tudo parecia estar igual;

O único barulho vinha do relógio, na parede da cozinha, ele ainda funcionava, nem o pó conseguiu alcançá-lo. Parecia vivo, mais que isso, parecia contente. Seus ponteiros reluziam em meio as sombras da casa.

Papai sempre contava-nos que os relógios eram servos de Deus; Eles colecionavam cada segundo da nossa vida, e jamais repetiam um instante sequer na sua coleção. Quando um relógio parava, era Deus abrindo uma porta para alguém entrar, era o que papai dizia-nos.

Abri todas as gavetas que encontrei, as gavetas guardam pedacinhos das pessoas; Eu misturava meus olhos as coisas absurdamente intimas que moravam nas gavetas do papai e da mamãe, acima de tudo, cheiros, ah! Quantos cheirinhos.

No quartinho de mil coisas, como mamãe chamava, velhos brinquedos de velhas crianças criavam traças. Celina deve ter esquecido de levar sua cadeira de rodas, pois ela estava ali, misturada as nossas bonecas; será que ela ganhou pernas novas?

Por que eles não me levaram junto para escolher a casa, por que?

O espelho no quarto dos meus pais refletia a janela, que abria um céu dentro dos meus olhos.

A febre estava quente, parecia cozer minhas bochechas. Enquanto a tarde triste e chuvosa lambia o telhado, adormeci no sofá bege, bordado com florinhas verdes. Acordei com barulho de passos na escada. Fui até a porta da cozinha e vi uma velha subindo as escadas. Ela vestia um manto negro, com muitos ponteiros e números espalhados pelos cabelos e pelo corpo. Seus olhos pareciam dois relógios gritando tic-tac nos meus ouvidos.

Ela estendia-me as mãos querendo alcançar-me. Quando eu dava um passo para trás ela dava um para frente, quando eu dava um passo a frente ela recuava. Fiquei cansada e com muito medo; encima da fotografia da mamãe, chorei baixinho todos os fisgos do meu coração. Acabei adormecendo novamente no sofá.

Senti o rosário da vovó massageando-me todo o corpo. As luzes da casa foram acendendo-se uma a uma em cada cômodo. O perfume agridoce da noite invadia as janelas que se abriram. As cortinas iam e vinham e quando iam descobriam um céu enfeitado de estrelas.

O céu todo parecia um trigal de estrelas douradas se abrindo dentro de mim.

Meus joelhos coçaram o chão, senti uma vela despindo-se na cera, escorrendo até meu coração, acho que é a voz da mamãe.

Degustei-me por mais uns instantes, até que meus braços iam se cruzando num laço negro perdiz. Na febre que dormia em mim, vi um anjo levando os fisgos e toda a saudade que eu sentia.

Acordei com o barulho do tilintar da louça de mamãe; o cheiro de tinta das telas que papai pintava, novamente ardiam meu nariz, o chão rangia sob a cadeira de rodas de Celina, eles voltaram!

Corri até a cozinha e deparei-me com mamãe as margens do fogão, ela virou-se, e sorrindo, acenou-me um beijo.

- Vocês voltaram, mamãe!
- Não minha querida, você que acabou de chegar!

Na parede, o relógio finalmente, parou de funcionar.



(Cassiane Schmidt)

4 comentários:

Hamilton H. Kubo disse...

Bom dia, gostei muito deste conto.
Tanto que consegui em mente vislumbrar todas as cenas descritas.
É triste confesso, mas muito tocante.

Parabéns.
Beijos!

Descobrindo Um Novo Ser Lunático disse...

Maravilhoso !!!

Na morada de Deus não existem contagens, não existe pressa, não existe o que esperar nem o que conter...

Nossa meus olhos mergulham em lágrimas nesse instante, muito lindo mesmo !

Como é bom passar por aqui !

Acho que Parabéns é muito pouco diante desse texto !

Beijos
Leticia Duns.

Socorro Melo disse...

Estou começando agora nesse mundo fantástico que é a Blogosfera. Visitei seu Blog e fiquei encantada com seus contos, são lindos, diferentes... Achei emocionante o relato da morte do Dudu Cão, que peninha! Parabéns pelo seu lindo trabalho. Bjos. Socorro Melo

Lívia Inácio disse...

(...) Nunca imaginei que a saudade pudesse guardar tanta memória, ou é a memória que guarda a saudade?

Adorei o conto!
Adorei seu blog!

Já estou te seguindo!

Bjinhos***