
Cansada do aguaceiro, digo: anjo vai chorar em outro cercado.
O anjo intrigado responde-me: não são lágrimas, é apenas chuva...

Espreita-me ao longe uma sombra chamada tristeza,

A águia vive aproximadamente setenta anos. Quando chega pela metade de sua existência, seu bico está enfraquecido e gasto, as unhas de suas garras estão fracas, de modo que não consegue mais segurar suas presas e suas penas tornaram-se pesadas devido à sujeira acumulada nesses anos, dificultando-lhe o vôo.Neste momento, a águia deve tomar uma decisão: ficar como está e enfrentar a morte certa, ou iniciar um doloroso processo de renovação. Algumas optam pela primeira alternativa. Essas são as fracas, as que se entregam sem lutar. Desistem de viver com medo da dor e da mudança. Outras, no entanto, seguindo o instinto de sobrevivência, desafiam a dor da renovação.Essa renovação começa a ocorrer quando a águia busca abrigo em alguma fenda do penhasco, onde se abriga de outros predadores. A ave, então, começa a bater o velho bico contra a rocha até conseguir arrancá-lo e espera que nasça outro.Em seguida começa a arrancar as velhas unhas com o bico novo. Quando novas unhas surgem, a águia começa a usá-las junto com o bico, para arrancar as penas endurecidas e sujas.Somente depois desse ritual de renovação, a águia recupera as condições de voar novamente.
Encontro, encontre-se...
Depois do desconforto de ficar por longas horas, dias, meses, anos, sem as bases do auto-conhecimento, sugiro experimentarmos abrir as portas desse porão empoeirado, fazer uma faxina na Casa do eu. Você conhece essa casa? Eu ainda não! Pergunta-me, ainda não conheces? Respondo-te: não. Essa casa é grande, nela há muitos labirintos, armadilhas e alçapões.... Mas é preciso começar a descobri-la.
Descer as escadas não e fácil, olhar no espelho, quebrar a velha taça de vinho, de sangue. Falo em descer com a intenção de lembrar que a escala de tempo aqui é decrescente, sempre. Haja vista que estamos numa expedição em busca de nós mesmos, a bússola para não se perder é a coragem.
Imaginem uma parede pichada, varias cores, formas, todas disformes, incompletas e confusas, assim somos nós na maioria das vezes.
O desconhecimento da origem das tendências, dos gostos e desgostos, nos tornam vulneráveis ao tirano que há, pasmem, dentro de cada um nós, não há fera mais impiedosa do que a bestialidade de não saber quem se é.
E preciso coragem para sair de casa, de dentro, de olhar para dentro, sem medo, sem pudor, sem rancor, sem hipocrisia.
É preciso descer as cavernas do interior, escalar delicadamente nossas emoções, e principalmente, nossas reações.
É preciso coragem para encontrar velhas pessoas, desfazer quadros psíquicos doentios, perdoar, arranhar as lembranças, fazer sair o sangue da magoa estancado na epiderme mais profunda. Uma viagem pelo passado, descobrir onde nos perdemos, onde aprendemos a não nos amar, visitar a casa de bonecas da infância, olhar-se profundamente, um estado de contemplação profunda e solitária.
Sair do conforto para o desconforto do auto-enfrentamento, uma procura pelos arquivos secretos do tempo, os maiores arquivos a nosso respeito encontram-se na família, abrindo o arquivo familiar isento de julgamentos medíocres ter-se-á acesso a nossa literatura, aquela que delineou parte, grande parte do que somos hoje, do que acreditamos Ser.
Vai, abre sem medo! Chore, ria, mas jamais sinta piedade de você, a auto piedade enfraquece as pernas nesse caminho, que é por demasiado longo. Não desista siga em frente, sei que alguns espinhos far-te-ão doer os pés, mas siga. Passe pelo jardim, pise no lodo sem medo de sujar os pés, é necessário coragem para rever velhas figuras, velar e enterrar velhos ídolos talhados ingenuamente. Destarte, como num trem fantasma, passaremos pela escuridão, lapsos de luz, gritos de dor, sorrisos histéricos, até chegar à superfície. E, então cansados, afogados dentro de nós, sairemos mais fortes, mais conscientes, aprenderemos a aceitar nossas limitações, sem auto piedade, mas (Com-paixão) o caminho de volta para casa ficara mais fácil. Lembre-se nada de julgamentos, simplesmente ame sua história, pois agora voçe ja a conhece.
(Cassiane Schmidt)
Abrem-se os portões, os portões do novo ano – péssima metáfora- penso, imagino que muitas idéias, vícios, amores, dores irão conosco para a nova fase, muitas ficarão para trás. Uma espécie de velório silencioso, onde sepultamos dolorosamente o que não cabe mais, perscrutamos o intimo da alma e, despedimo-nos de parte de nós, mata-se um pouco de nós mesmos para poder manter-se vivo.


Estou lendo Castro Alves, gostaria de compartilhar este poema "Adormecida" com voçes, este é um daqueles raros e caros poemas que conseguem pegar a gente pela mão e nos colocar dentro dele...sentir o cheiro, ver as cores, uma tela de cinema, poucos escritores conseguem fazer isso...

